Procedimento interrompe conexões vasculares anormais quando elas acontecem entre gêmeos que dividem a mesma placenta
F ortaleza (CE) – A Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (Meac), da Universidade Federal do Ceará (CH-UFC), é referência no diagnóstico e tratamento da Síndrome de Transfusão Feto-Fetal (STFF) pelo Sistema Único de Saúde (SUS), uma condição rara e grave que pode ocorrer em gestações de gêmeos que compartilham a mesma placenta (monocoriônicas ). O CH-UFC é vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (HU Brasil).
Segundo Herlânio Carvalho, coordenador do Serviço de Medicina e Cirurgia Fetal da Meac, a STFF ocorre em cerca de 15% das gestações monocoriônicas . “A condição é causada por conexões vasculares anormais (anastomoses) na placenta, que criam um desequilíbrio no fluxo sanguíneo: um bebê (doador) passa sangue continuamente para o outro (receptor). Sem tratamento, a taxa de mortalidade pode chegar a 85% para ambos os fetos”, explica.
O feto doador pode apresentar diminuição do volume de sangue, anemia e redução da produção de urina, o que leva à queda expressiva do líquido amniótico. Já o bebê receptor recebe sangue em excesso, o que sobrecarrega o coração e pode evoluir para insuficiência cardíaca, além de provocar aumento exagerado do líquido amniótico (condição chamada de polidrâmnio), que eleva o risco de parto prematuro.
Diagnóstico da síndrome
A síndrome pode evoluir de forma silenciosa e o diagnóstico é feito por ultrassonografia. De acordo com Herlânio, o período de maior risco para desenvolvimento desse problema, segundo ele informa, é entre a 16ª e a 26ª semana de gestação.
A cirurgia é minimamente invasiva (fetoscópica ) a partir da técnica reconhecida como padrão-ouro nessas situações: de Solomon , que interrompe, através de um laser, essas conexões vasculares anormais da placenta, separando a circulação sanguínea dos dois bebês através de uma linha contínua, garantindo que nenhuma conexão invisível permaneça, conforme detalha o especialista. Ao final do procedimento, o excesso de líquido amniótico da bolsa do bebê receptor também é drenado para reduzir a pressão dentro do útero e diminuir o risco de parto prematuro. “Com a cirurgia, a chance de sobrevida de pelo menos um dos bebês sobe para cerca de 80% a 90%, e de ambos para cerca de 60% a 70%”.
A paciente Jakeline Rocha, de 34 anos, descobriu a condição durante uma ultrassonografia de rotina, quando estava com 22 semanas de gestação, em São Luís (MA), onde mora. No mesmo dia, ela foi encaminhada para Fortaleza, para atendimento na Meac, onde ficou internada e realizou o procedimento necessário. Foi possível salvar um dos bebês com a técnica: Tomás, hoje com quatro anos. Tomé, o outro gêmeo, era o bebê doador e não evoluiu. “Apesar de tudo o que vivemos, Tomás nasceu saudável, um bebê que não me deu trabalho. Eu sou extremamente grata a Deus e aos bons médicos. Sem eles, eu não sei se eu ou o Tomás estaríamos aqui. A minha vida é meu filho”, declarou.
O gerente de Atenção à Saúde da Meac, Edson Lucena, evidencia essa atuação da Maternidade-Escola na medicina fetal de alta complexidade pelo SUS. “Trata-se de uma intervenção capaz de modificar o curso natural de uma doença grave da gestação e ampliar as chances de sobrevida desses bebês. A experiência fortalece o papel da Meac na assistência, ensino e pesquisa em medicina fetal, além de contribuir para a expansão de programas especializados no cuidado de gestações de alto risco no Brasil”, declara.
Classificação define a gravidade e o desfecho da síndrome
Após o diagnóstico, os especialistas utilizam uma classificação chamada “Quintero” para avaliar a gravidade. São cinco estágios: nos estágios iniciais, as alterações são percebidas na diferença de líquido amniótico entre os fetos (estágio I) e no tamanho da bexiga (estágio II). Nos casos mais avançados, podem surgir alterações no fluxo sanguíneo (estágio III), edema generalizado (estágio IV) e, em situações extremas, óbito fetal (estágio V).
A técnica fetoscópica é indicada entre os estágios II e IV do problema. No primeiro estágio ainda há chance de reversibilidade espontânea, mas, caso o contexto da gestação seja de risco, também é realizado de forma emergencial. “Se detectada precocemente em estágios menores e tratada (com a cirurgia a laser), as chances de sucesso são significativamente maiores”, reforça Herlânio .
Publicação internacional
De 2019 a 2024, a Meac recebeu 31 casos de STFF, com pacientes de Fortaleza, do interior cearense e de outros estados, e documentou esses atendimentos em um artigo publicado na revista eletrônica internacional “The Journal of Obstetrics and Gynecology of India ” (Revista de Obstetrícia e Ginecologia da Índia) em fevereiro. O estudo tem como título “Terapia a laser fetoscópica para Síndrome de Transfusão Feto-Fetal: curva de aprendizado e resultados perinatais em um centro terciário público brasileiro” e pode ser lido aqui .
“Os resultados demonstram que o procedimento é viável e pode produzir desfechos perinatais relevantes, ampliando o acesso a terapias fetais de alta complexidade no SUS. O artigo também destaca a importância do diagnóstico precoce e do encaminhamento oportuno para centros especializados, fatores que influenciam diretamente as chances de sobrevida fetal”, detalha Edson Lucena. O artigo teve como autores Edson Lucena, Herlânio Carvalho, Carlos Augusto Alencar Júnior, Virlênia Oliveira, Edward Araújo, Gustavo Callado, Maurício Barbosa e Antônio Moron.
Sobre a HU Brasil
Vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a HU Brasil foi criada em 2011 e, atualmente, administra 45 hospitais universitários federais, apoiando e impulsionando suas atividades por meio de uma gestão de excelência. Como hospitais vinculados a universidades federais, essas unidades têm características específicas: atendem pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) ao mesmo tempo que apoiam a formação de profissionais de saúde e o desenvolvimento de pesquisas e inovação.
Por Marília Rêgo