DIREITOS HUMANOS

Riscos do El Niño podem se acumular na rotina de crianças, diz Unicef

Entidade relaciona calor, seca e enchentes a possíveis interrupções em saúde, alimentação, água, educação e renda; previsão aponta chance superior a 90% de intensidade muito forte entre setembro e novembro.

Os efeitos do El Niño 2026–2027 podem atingir crianças e adolescentes por uma sequência de impactos que envolve saúde, alimentação, acesso à água, educação e renda familiar, segundo uma nova análise do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A entidade afirma que a intensidade dos eventos climáticos, as condições ambientais e a capacidade de preparação dos serviços públicos influenciam a dimensão dessas consequências.

O cenário previsto para o Brasil inclui probabilidade superior a 90% de o fenômeno alcançar intensidade muito forte no trimestre de setembro, outubro e novembro. O boletim foi divulgado em 1º de setembro por órgãos oficiais. A previsão indica chuva abaixo da média em grande parte das regiões Norte e Nordeste, acima da média especialmente no Sul e temperaturas superiores à média em praticamente todo o país. Calor e estiagem também podem prolongar condições favoráveis às queimadas em áreas do Centro e do Norte.

Uma sequência de impactos

O El Niño faz parte de um ciclo natural relacionado ao aumento das temperaturas do Oceano Pacífico equatorial, com influência sobre os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta. O fenômeno ocorre, em média, a cada dois a sete anos. Conforme o Unicef, as mudanças climáticas e a degradação ambiental provocadas pela ação humana têm agravado as consequências dos ciclos.

Para Danilo Moura, especialista em Clima e Meio Ambiente do Unicef no Brasil, os dados meteorológicos indicam onde pode chover mais ou menos e onde o calor ou a seca podem se intensificar. A avaliação da entidade busca identificar como essas condições chegam à vida das crianças.

“Uma seca pode significar falta de água segura, fumaça, dificuldade para chegar à escola ou ao posto de saúde. Uma enchente pode significar escola fechada, vacinação interrompida ou perda da renda da família. E muitos desses impactos podem ser reduzidos se a preparação acontecer antes da emergência”, afirma Moura.

No país, mais de 30 milhões de crianças e adolescentes, seis em cada dez, estão expostos a dois ou mais riscos climáticos. Desse total, 16 milhões convivem com três ou mais riscos, de acordo com a análise.

Experiências recentes

O Unicef usa eventos registrados em 2024 como referência para mostrar como extremos climáticos podem interromper direitos. As enchentes no Rio Grande do Sul afetaram a educação de 741 mil estudantes. Na Amazônia, a seca extrema atingiu outros 436 mil. Ao todo, 1,17 milhão de crianças e adolescentes tiveram as aulas interrompidas.

A entidade afirma que crianças são particularmente sensíveis ao calor extremo, à desidratação, à fumaça, à má nutrição e a doenças favorecidas por mudanças de temperatura e nos padrões de chuva. Também dependem de adultos e de serviços públicos para ter acesso à água, à alimentação, à escola, à saúde e à proteção.

Medidas de preparação

Na área da saúde, o Unicef cita o fortalecimento da vigilância epidemiológica, a continuidade da vacinação e das equipes de saúde da família e o pré-posicionamento de medicamentos e insumos. Secas e enchentes podem comprometer a qualidade e a disponibilidade da água, favorecer doenças diarreicas e dificultar o acesso a unidades de atendimento. Alterações de temperatura e umidade também podem criar condições favoráveis à proliferação do mosquito Aedes aegypti.

Os impactos sobre a alimentação podem aparecer depois de perdas agrícolas, redução da renda e aumento do preço dos alimentos. Por isso, a entidade recomenda monitoramento nutricional, identificação precoce de casos e disponibilidade de insumos para atender crianças com desnutrição, inclusive em áreas remotas ou isoladas.

Para a segurança hídrica, são citadas a proteção e o monitoramento de fontes de água, planos de contingência para manter os sistemas em funcionamento e a garantia de insumos para tratamento. Em áreas sob risco de seca extrema, o Unicef também menciona estratégias comunitárias de armazenamento.

Na educação, falta de água, perda da navegabilidade, calor, fumaça, inundações e danos à infraestrutura podem interromper aulas e a alimentação escolar. A entidade afirma que as redes de ensino podem revisar planos de gestão de riscos e preparar alternativas para manter a aprendizagem, inclusive em casa. Já os sistemas de proteção social podem manter ou ampliar benefícios e conectar rapidamente famílias afetadas aos serviços essenciais.

“Preparar o Brasil, portanto, não significa apenas atravessar o ciclo de 2026–2027, mas construir uma rede de proteção capaz de responder aos próximos El Niños e a outros eventos extremos, com crianças, famílias e serviços essenciais mais protegidos do que no passado”, diz o Unicef.

Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.